"A diferença que essa leve mudança de orientação pode fazer é enorme, e pode até reverter aqueles desastres que ameaçam o mundo. Quando um número muito maior de pessoas conhecer a natureza de sua mente, conhecerá também a gloriosa natureza do mundo em que vive e lutará com urgência e coragem para preservá-lo. É interessante que a palavra para 'budista' em tibetano é nangpa, significando 'pessoa do lado de dentro': aquele que busca a verdade não no exterior, mas dentro da natureza da mente. Todos os ensinamentos e treinamentos no budismo são dirigidos para esse único ponto: olhar para dentro da natureza da mente, libertando-nos assim do medo da morte e ajudando-nos a compreender a verdade da vida.
"Olhar para o interior exige de nós grande sutileza e coragem - nada menos que uma mudança completa em nossa atitude em relação à vida e à mente. Estamos de tal modo viciados em olhar para fora de nós mesmos, que perdemos quase por completo o acesso ao nosso interior. Ficamos apavorados com a ideia de olhar para dentro, porque nossa cultura não nos dá a mais vaga ideia do que encontraremos. Podemos até pensar que se o fizermos correremos o risco de enlouquecer. Esse é um dos últimos e mais engenhosos estratagemas do ego para evitar que descubramos nossa verdadeira natureza.
"Assim, tornamos nossas vidas tão febris, que eliminamos delas o mais ligeiro risco de olhar para dentro de nós. Mesmo a ideia de meditação pode assustar as pessoas. Quando ouvem falar nas palavras 'ausência de ego' ou 'vacuidade', elas pensam que experimentar esses estados equivaleria a ser lançado da escotilha de uma nave espacial para flutuar para sempre no vazio escuro e gelado do espaço. Nada poderia estar mais distante da realidade. Mas num mundo dedicado à distração, o silêncio e a quietude nos aterrorizam. Protegemo-nos deles com o barulho e a atividade frenética. Observar a natureza da nossa mente é a última coisa que ousaríamos fazer.
"Às vezes, penso que não queremos fazer perguntas verdadeiras para saber quem somos, por medo de descobrir que existe uma outra realidade diferente desta. O que essa descoberta faria da maneira como vivemos até agora? Como nossos amigos e colegas reagiriam ao que agora sabemos? Que faríamos com esse novo saber? Com o conhecimento vem a responsabilidade. Às vezes, mesmo quando a porta da cela se escancara, o prisioneiro prefere não sair."
Sogyal Rinpoche, em O livro tibetano do viver e do morrer (Editora Talento/Palas Athena).
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